quinta-feira, 20 de maio de 2010

ERA UMA VEZ…




Era uma vez um reino onde viviam um rei, uma rainha, a rainha-mãe e duas princesinhas.

As duas princesinhas eram lindas, tímidas e delicadas.

Uma era ruiva e sardenta com uma densa cabeleira aos caracóis. Era introvertida e detestava os caracóis e as sardas. Quando sorria baixava o olhar como se não lhe fosse permitido mostrar a alegria. Tinha uma beleza rara mas por não ser vulgar não a percebia e sentia-se, infundadamente, menos bela que a irmã.

A outra princesa tinha o cabelo louro e uma tez alva, parecendo uma boneca de porcelana. Era porventura a mais bela donzela do reino. Também mais extrovertida nas brincadeiras e nos sorrisos que a sua irmã mas não menos reservada no trato.

O pequeno cavaleiro adorava visitar as princesas ao seu castelo. Adorava correr as divisões e os vários pisos daquele castelo, descomunal quando comparado com a sua própria casa. Brincava com as princesas na mansarda, pelos pátios e jardins mas era sobretudo nas antigas masmorras que se passava a maior parte da brincadeira.

Aí, entre as peles e curtumes descobriam as pedras de pez e juntavam-nas no seu tesouro como se de âmbar se tratasse. Era bem verdade que as princesas tinham umas pedras de quartzo colorido com mais valor, mas estas eram escassas e muito guardadas.

A Rainha, bondosa e extremosa, adorava que o pequeno cavaleiro se juntasse à companhia das princesas, quase sempre isoladas no seu grande castelo.

Relevava as mãos sujas e as caras mascarradas como apareciam, e chamava-os com alegria para o lanche.

Os olhos do pequeno cavaleiro abriam-se de espanto e alegria perante a diversidade e abundância do festim. Cada lanche preparado pela Rainha era um momento inolvidável que iria permanecer para sempre na sua memória e sobretudo pela atenção e o afecto que eram colocados nestes lanches com que o recebiam no castelo.

Com a Rainha aprendeu os primeiros trabalhos manuais e as primeiras palavras de francês. Com Rainha aprendeu a cantar duas baladas que o seguiram pela vida fora:

Le Petit Train

Le petit train
S'en va dans la campagne
Va et vient
Poursuit son chemin

Serpentin
De bois et de feraille
Rouille et vert de gris
Sous la pluie

Il est beau
Quand le soleil l'enflamme
Au couchant
à travers champs

Les chapeaux
Des paysannes
Ondulent sous le vent

Elles rient
Parfois jusqu'aux larmes
En rêvant à leurs amants

L'avoine est déjà germée
As-tu rentré le blé?
Cette année les vaches ont fait
Des hectolitres de lait

Petit train
Où t'en vas-tu?
Train de la mort
Mais que fais-tu?
Le referas-tu encore?

Personne ne sait ce qui s'y fait
Personne ne croit
Il faut qu'il voie
Mais moi je suis quand même là

Le petit train
Dans la campagne
Et les enfants?

Les petit train
Dans la montagne
Les grands-parents

Petit train
Conduis-les aux flammes
à travers champs

Le petit train
S'en va dans la campagne
Va et vient
Poursuit son chemin
Serpentin de bois, de feraille
Marron et gris
Sous la pluie

Reverra-t-on
Une autre fois
Passer des trains
Comme autre fois?
C'est pas moi qui répondra



Personne ne sait
Ce qui s'y fait
Personne en croit
Il faut qu'il voit
Mais moi je suis quand même là

Petit train
Où t'en vas-tu?
Train de la mort
Mais que fais-tu?
Le referas-tu encore?

Reverra-t-on une autre fois
Passer des trains comme celui-là?
C'est pas moi qui répondra


E também:

Sur Le Pont D’Avignon
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les beaux messieurs font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les bell' dames font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les jardiniers font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les couturiers font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les vignerons font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les blanchisseus's font comm' çà
Et puis encore comm' çà


À noite a Rainha juntava as suas princesinhas e o pequeno cavaleiro na varanda do seu castelo e fazia-os observar as estrelas que brilhavam no céu.

- Aqueles são os nossos Anjos da Guarda. Os nossos entes queridos que já partiram e que estão no Céu a velar por nós.

E o pequeno cavaleiro mirava as estrelas e fixando uma mais resplandecente pensava no seu irmão mais novo que morrera à nascença e entoava:

Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia.

Algumas vezes por ano, davam-se os momentos mais aguardados, fidalgos e donzelas, cavaleiros e pagens, aias e princesas eram convidados pelo arauto para participar nos bailes em honra das princesas que poderiam ocorrer nos seus aniversários ou nas festas de Carnaval, no Grande Palácio do Reino.

E com mãos de fada, num dom incomparável, a Rainha pegava em papel de seda, em fitas coloridas e em colas , vernizes e tintas, em cartolinas, ráfias e guitas, em veludos, contas e missangas e para todos criava numa explosão de cor e fantasia, os trajes que cada um levaria aos bailes.

Eram reis extremosos com as suas princesas sempre as acompanhando a todos os recitais, sentando-se em família no camarote principal. Quantas vezes o pequeno cavaleiro foi convidado a subir ao camarote e quantas vezes as princesas suplicaram para descer para junto do pequeno cavaleiro e da sua companhia!

Pais mais dedicados às suas filhas nunca houve e estas crescerem num ambiente feliz e protector.


Ao crescerem, os Reis nomearam o pequeno cavaleiro protector das princesas. Serás porventura um Cavaleiro Andante mas serás o seu Paladino, o seu Lancelot!

E o pequeno cavaleiro cresceu junto das duas princesas acompanhando-as pela infância e juventude.

Sempre que um cavaleiro aparecia como pretendente a uma das princesas ou meramente pretendendo ser o seu par num baile do reino, a Rainha não lhe perguntava primeiro quem era, quem eram seus pais ou donde vinha. A sua primeira pergunta era ‘’Sois amigo do pequeno cavaleiro?’’ e em resposta afirmativa um sorriso se abria e a permissão era concedida sem mais perguntas ou entraves.

Dois momentos contudo vieram perturbar a felicidade do reino. A morte da Rainha-Mãe e mais tarde do amado Rei.

Na Rainha e nas suas princesas instalou-se uma melancolia que esteve sempre presente por toda a vida mesmo que disfarçada pelos lindos sorrisos com que brindavam os seus amigos.

Mas certamente, sempre que caía a noite, olhavam para o céu e viam as duas estrelas mais resplandecentes a brilharem para elas e no seu intimo oravam sorrindo:

Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia

O pequeno cavaleiro cresceu mas a Rainha esteve sempre presente na sua vida, acompanhando o seu progresso nas letras e ofícios e o seu desembaraço nas lides das armas e da diplomacia, o métier de um bom cavaleiro.

Nunca lhe faltou com uma palavra de apoio, de simpatia ou de conforto.

Quando o pequeno cavaleiro agora já crescido decidiu cortejar e mais tarde casar com uma princesa de fora do reino, muitos foram os que discordaram e quase levantaram armas. Mas a Rainha um dia vendo-o enquanto passeava, saiu da sua comitiva e dirigiu-se ao cavaleiro dando-lhe o apoio e a concordância que ele precisava.

- O amor vence! O amor é tudo!

E mais tarde quando o cavaleiro apareceu com o seus pequenos rebentos, de novo a Rainha se lhe dirigiu e acariciando as faces dos pequenos querubins manifestou uma alegria só comparável à que sentia pelas suas próprias netas.

E o pequeno, agora crescido cavaleiro, lembrou com saudade os tempos das correrias no castelo, as palavras do primeiro francês e as escoltas às princesas no caminho para a escola.

Um dia a Rainha adoeceu, o seu espírito batalhou entre o desejo de se reunir com o seu amado e bondoso Rei e a sua saudosa mãe e a vontade de permanecer e manter o braço protector sobre as suas princesas.

Foi uma batalha longa, dura e corajosa. Não importasse a duração e a dureza do combate, as duas princesas permaneceram juntas com a sua mãe, sofrendo com ela, serenando com ela.

Até que um dia compreenderam que o tempo era chegado. A Rainha já sofrera o suficiente na luta inglória contra um destino que a afastava fisicamente das suas filhas.

Era tempo de partir. Era tempo de finalmente poder juntar-se ao seu querido Rei, à sua querida mãe e a todos os que tinham feito parte da sua vida, que a tinham acompanhado nos tempos de princesa, nos tempos dos sonhos e dos desejos.

Então o seu espírito partiu. Elevou-se no ar e metamorfoseou-se numa estrela, juntando-se a todas as outras que brilham no céu.

E há noite, as duas princesas e as duas pequenas princesinhas olharam para o céu e viram não duas mas três estrelas a brilhar mais forte.

E ao longe o cavaleiro tornou-se de novo criança e orou:

Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia

E fez uma genuflexão e erguendo uma taça brindou:

Longa Vida à Rainha
Que viva sempre nos nossos corações!


“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém… Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto… e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!”

(Antoine de Saint-Exupéry - O Pequeno Principe)

In Memoriam IC




Sur le pont d'Avignon



Rita Mitsouko- Le petit train



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